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1.8.22

Pride

Isadora Garcia

Being proud is like riding a rollercoaster. On your way up, the wind makes the hair on the back of your neck come to life. You keep seeing the same view, but from higher and higher. Things get smaller as you climb. You may feel big in comparison, or you may feel a bit out of proportion. When you reach the summit, you wonder why the hell you’re there. Whose idea was it again? You consider the pain of falling from that height. Would you even survive? But the car doesn’t wait for you to process these feelings. Before you know it, you’re riding down. And the wind is so strong, it’s hard to see. You have to yield control for a moment there. It’s not up to you if you live or die anymore. Then the train breaks smoothly until it comes to a full stop at the bottom. You can feel your body again. The security bar is lifted and you hit the ground with your foot as you exit the car. You’re still a bit dizzy, it was all exceptionally fast. It seemed like much longer, though. Now you’re safe again, you gotta resume your life as if that hadn’t happened. It's odd. Really odd.

16.5.13

A cena final

Isadora Garcia

    Cada ponto final era como uma facada, cada vez alcançando espaços mais íntimos nas entranhas da velha. Era a última vez, ela sabia. Não haveria um próximo encontro, não haveria mais futuro, não haveria mais nada, era o fim. Não estava preparada para o adeus ainda, ela repetia, enquanto seus olhos, já embaçados pela emoção, deixavam escapar uma lágrima, única representação verdadeiramente física de seu sofrimento. Mas não havia mais como desistir, o acordo estava feito e este era o momento do adeus. As dores das feridas ardiam e matavam a escritora por dentro. Ela não podia parar, ou não chegaria ao fim, tinha consciência de sua limitação. Era pouco o ar que chegava a seus pulmões, estava morrendo. Morria junto com o fim da história que escrevia. Não era um fim como os outros, ah!, não era! Este fim marcava, também, o término de uma vida conjunta, de um amor incompreensível a corações humanos. A velha amava aquele homem com mais intensidade do que saberia explicar. E o fato de que dela dependia a existência dele queimava por dentro. Ele só morreria por causa dela, era tudo sua culpa. Seu corpo tremia. Estava ponto um fim à vida de ambos. A velha morria por matar seu personagem e ele morria em virtude da morte de sua criadora. Não havia alternativa, não havia saída. Ela soluçava. Seu sangue encontrava dificuldade para percorrer o caminho até seu coração. O barulho das teclas acompanhava as facadas que lhe tiravam a vida. Chegara a cena final do último dos romances figurados pelo vilão. Ele já avistara sua vitma: parada, sentada diante de uma máquina de escrever. Este seria o último assassinato, seria o golpe definitivo, mataria vitma e vilão, estranhamente misturados em seus papéis. O homem já estava próximo o suficiente, sedento por sangue, quando percebera que sua presa chorava, consciente do próximo evento. Mas isso pouco lhe importava. Este era seu destino, este era seu ofício. E com um último suspiro, a velha escreveu o ponto final.

29.12.12

Fim súbito para o amor

Isadora Garcia

Não havia absolutamente nada que os conectasse, que pudesse fazer suas vidas se cruzarem, ou que possibilitasse um encontro casual. No entanto, da forma mais casual possível, seus caminhos deixaram de ser paralelos e, em um dado momento, sem que houvesse maior explicação do que o simples acaso, conheceram-se.
Digo desta forma: "conheceram-se", justamente por ter sido algo bem rápido, e não um processo longo, como normalmente levamos para afirmarmos que conhecemos alguém. O que normalmente leva-se meses para se tornar concreto, formou-se em pouco mais do que alguns dias. Não sei se foi a vontade de estarem juntos, se foi o fato de combinarem, ou se há alguma explicação para que tudo tenha ocorrido tão rápido, mas o fato é que, em poucas semanas, havia amor.
É difícil saber exatamente quando as coisas começaram a não dar certo. Não é que tenham surgido brigas ou discussões, mas tudo se tornou simplesmente confuso. É, acho que confusão é a palavra que define este momento daquela relação. Os dois estavam assustados e não havia como acalmá-los por meio de lógica, já que não existia lógica alguma naquilo tudo. E era impossível desligar as preocupações sem explicação racional para a paixão.
Aflitos e com medo, decidiram que o melhor era fazer aquilo parar. Já não pensavam mais no amor, apenas na confusão. Eles buscavam soluções para problemas dos quais eram eles próprios criadores, mas disso não se davam conta, é claro. E foi desta forma que o amor foi posto de lado e a razão tomou seu lugar. Assim que tomaram a decisão, se acharam muito responsáveis, os dois. Era admirável como conseguiam lidar com a situação com os pés no chão!
Dias passram e não, não funcionou. Foi súbita a maneira como suas vidas se cruzaram, mas não era possível que fosse igualmente súbita a separação dos dois. Antes, não havia nada, mas depois... Não se mata uma relação, uma história, um sentimento do dia para a noite, com um assinar de papéis. Não, não é assim que funciona. O ser humano é mais complexo que isso, é muito mais fascinante que isso! Se o amor fosse um jogo de regras definidas, não o jogaríamos a vida inteira com tamanha curiosidade. Se fosse fácil assim, haveria manuais, prescrições e até remédios (e, certamente, há os que os queiram!).
Observo de longe esses dois tolos que ainda ontem estavam sorrindo, achando que haviam feito a coisa certa e que haviam findado o problema. "Problema", chamam eles, mas que horror! Isso haveria de me agredir, de me ofender, mas nem ligo. Estou aqui a rir, enquanto eles pensam que se livraram do amor. Mal sabem eles a força que este sentimento tem. Mal sabem eles que é inútil tentar matar assim, de repente, algo que está predestinado a uní-los para sempre. Vou até ajeitar-me na poltrona, a história desses dois vai ser gostosa de assistir.

21.10.12

Olha e vê!

Isadora Garcia

Era uma vez uma menina bem pequenininha. Bem verdade era que as responsabilidades que levava nas costas não condiziam com o tamanho da pobre menina. "Já és grande o suficiente!", diziam a ela, "já está mais do que na hora de caminhares com tuas próprias pernas, oras!". Mas não era assim que a menina se via. Para ela, suas mãos ainda não suportavam o árduo trabalho, seus pés logo se cansavam de sustentar o peso de toda sua obrigação. Olhava-se no espelho e via refletido em seus olhos castanhos o medo. Como tinha medo essa menina! Medo de quê? Medo do futuro, mas é claro! Ah, o futuro... Há algo mais amedrontador do que aquilo que esta palavra resume? O incerto, o obscuro, o duvidoso... Sim, era o futuro que figurava nos pesadelos da menina. E assim ela foi vivendo, ela foi dando conta daquilo que dela era exigido. Mas mal percebia, a menina, que caminhava a passos largos em direção ao seu temido futuro. E seu caminho fora ficando mais claro, mais iluminado, mais povoado, também. De repente, ela, que pensou que o caminho para o futuro devesse ser percorrido a sós, percebeu-se rodeada de companhias, que, num falatório animado, distraiam-na dos obstáculos, alertavam-na para os perigos. Contente, a menina já pouco se lembrava de seus medos. Era como se eles estivessem adormecidos, esquecidos embaixo de pesados cobertores. Já não era mais uma menina. Crescera. Verdade era que as feições juvenis ainda eram muito presentes, mas a mente (ah, a mente!) já estava muito mudada, muito amadurecida, muito vivida, se é que é permitido assim dizer de alguém de 19 anos. Sim, creio que assim seja possível afirmar, pois é isto que a menina via, mas não só isso. Num dado momento da caminhada, ela fora surpreendida pela presença de um enorme espelho. Em sua bela e delicada moldura, estava escrito simplesmente: "olha e vê". E foi isso que ela fez. Neste momento, a menina se viu, a menina se percebeu. Logo lágrimas encheram seus olhos e obscureceram sua visão. E quanto menos enxergava, mais era a menina capaz de se ver! E que visão incrível! Como pudera o tempo, a correria do caminhar e as distrações da jornada lhe tornarem tão alheia a si mesma? A menina se via e chorava, emocionada. Tudo o que ela mais queria estava se tornando realidade! Ela estava vendo em si mesma a realização de uma antiga promessa, algo que se propôs, timidamente, a realizar anos antes, mas que nunca chegara a verdadeiramente acreditar que poderia vir a se concretizar. E lá estava ela. Real. Forte. Capaz. Esta visão foi talvez o marco mais importante da vida da menina. Foi a partir deste momento que ela começou a confiar em si mesma. E quando confiamos em nós mesmos, não há fronteiras que limitem até onde poderemos chegar!

4.8.12

Privação ideológica*


Isadora Garcia

Violentamente, puxaram meus pés de volta ao chão, amarraram minhas asas e vendaram-me os olhos. Estava voando muito alto, diziam. Alcançando ideias perigosas, justificavam. Tolos! Vendas nunca serão negras o suficiente, nem cordas serão fortes o bastante para findar os sonhos e cantos de minha alma.


*Adaptação de Sonhar é permitido? para um concurso de mini-contos.

21.6.12

Sonhar é permitido, dizem os jornais

Isadora Garcia

-Sonhar é permitido, está nos jornais! E, olha só! Agora também está liberado viver para realizar seus sonhos!

-Será?! Não acredito! Não é possível!

-Pois acredite, rapaz! Foi decretado, virou lei!

-Mas... Logo eu que... Foram tantos anos tentando enterrar meus sonhos, tentando ignorar seus chamados... - Pausa - E se estiverem mortos?!?!

-Pois trate de reanimá-los, meu caro, ou morrerás tu!

Vozes guardadas

Isadora Garcia

No silêncio da noite, cautelosa, tento despertar uma das vozes que mora em meu peito. Todo cuidado parece pouco na delicada tarefa de interromper-lhe o sono sem causar-lhe incômodo. Quero ouvi-la, quero descobrir quais doces palavras ela anda guardando para si, embora haja sempre o risco de serem amargas suas palestras.

31.5.12

Sonhar é permitido?


Isadora Garcia 

Descobri a magia e o poder das palavras aos poucos. O mistério que as envolve foi me fascinando de tal forma, que não pude ignorá-lo. Ele tornou-se autor de meus sonhos e me incentivou a buscar na beleza das letras a possibilidade de externar sentimentos, fantasias e desejos. A descoberta desta possibilidade infinita de provar tão doce sabor me encantou e, leve e sorridente, dei asas a sonhos que me levaram (e ainda levam!) para mundos fantásticos. A coisa foi tomando dimensões que, a meus olhos, eram magníficas, mas, na ótica da fria realidade, eram preocupantes. Foi então que começaram a puxar meus pés de volta para o chão, a me impor vendas e cordas, a cortar minhas asas, que cultivava com tanto orgulho. Que dor! Que horror! Aquilo me doeu, como me doeu! Mas as vendas não eram negras o suficiente e as cordas não tinham a força requerida para parar os cantos de minha alma. Durou pouco o tempo em que aceitei esta prisão. Logo minhas asas já estavam novamente fortalecidas e foi então que dei o maior salto de todos! Ah, que maravilha o vento a me tocar o rosto! Era incrível a leveza depois da privação! Hoje cultivo meus sonhos e meu imaginário, confiante. Muitas vezes ainda sinto a queimação das cordas em meus pés, tentando me prender a um mundo de limitações, mas logo vêm as palavras a me abrir os olhos, a levantar meu rosto e me apontar o céu, moradia eterna da alma que acredita.

27.5.12

Memória fraca


Isadora Garcia

           A realidade chegou cortante, dilacerando tudo ao seu redor. Meu coração, que antes mascarava certezas, fantasiando dúvidas, hoje se vê rasgado por verdades nuas e cruéis. Não há qualquer preocupação da vil assassina em atenuar os estragos que causa. O real machuca de propósito, corta com vontade, que é para ver se o coração aprende de uma vez por todas a lição. Mas ele não aprende... Ele não aprende...

26.3.12

Sozinho nunca está o coração que ama


 Isadora Garcia

    Hoje acordei e havia um pássaro em minha janela. Aproximei-me e estranhei a calma do pequenino frente ao que deve parecer um gigante para ternos olhinhos, tão belos que são! Após desfrutar da tal doce surpresa, voltei à rotina incessável dos dias, quase cega de tão automática. A comida sem gosto das horas poucas da manhã, a água caindo em meu corpo e o que devia ser o milésimo engarrafamento marcado pela mesma cena de sempre me impediram de reparar uma presença pequena, discreta, mas constante.
              Foi divagando em meio às explicações do professor, sempre ininterrupto em suas palavras complexas, que o notei ao meu lado. Era o pássaro da minha janela, era ele a me vigiar! Trocamos perguntas explícitas e mudas, buscando respostas em faces tão distintas, que impossível nos era ler nos traços um do outro o que figurava nosso diálogo.
          Tentei fotografar cada pena colorida. Procurei memorizar em detalhes aquele momento, aquela conversa silenciosa calorosamente a me inquietar. Mas quanto mais me preparava para o susto de sua partida, mais ele me dava certeza da estabilidade de sua presença. Não nos separaríamos mais, isto era óbvio! Qualquer um seria capaz de ler tais verdades nos detalhes daquele momento, mas éramos nós os únicos a dançar sob o som daquela melodia. Os dias seguintes vieram e cada vez mais me alegrava nossa parceria. Nunca mais me via a sós. Nem na dor, nem na alegria. Protagonistas eram dois dali em diante na poesia.

6.9.11

Gaiolas e asas – Rubem Alves

Os pensamentos me chegam de forma inesperada, sob a forma de aforismos. Fico feliz porque sei que Lichtenberg, William Blake e Nietzsche frequentemente eram também atacados por eles. Digo “atacados“ porque eles surgem repentinamente, sem preparo, com a força de um raio. Aforismos são visões: fazem ver, sem explicar. Pois ontem, de repente, esse aforismo me atacou: “Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas“

Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo.

Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.

Esse simples aforismo nasceu de um sofrimento: sofri conversando com professoras de segundo grau, em escolas de periferia. O que elas contam são relatos de horror e medo. Balbúrdia, gritaria, desrespeito, ofensas, ameaças... E elas, timidamente, pedindo silêncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina que sejam feitas, dar o programa, fazer avaliações... Ouvindo os seus relatos vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras à mostra - e a domadoras com seus chicotes, fazendo ameaças fracas demais para a força dos tigres... Sentir alegria ao sair da casa para ir para escola? Ter prazer em ensinar? Amar os alunos? O seu sonho é livrar-se de tudo aquilo. Mas não podem. A porta de ferro que fecha os tigres é a mesma porta que as fecha junto com os tigres.

Nos tempos da minha infância eu tinha um prazer cruel: pegar passarinhos. Fazia minhas próprias arapucas, punha fubá dentro e ficava escondido, esperando... O pobre passarinho vinha, atraído pelo fubá. Ia comendo, entrava na arapuca, pisava no poleiro – e era uma vez um passarinho voante. Cuidadosamente eu enfiava a mão na arapuca, pegava o passarinho e o colocava dentro de uma gaiola. O pássaro se lançava furiosamente contra os arames, batia as asas, crispava as garras, enfiava o bico entre nos vãos, na inútil tentativa de ganhar de novo o espaço, ficava ensanguetado... Sempre me lembro com tristeza da minha crueldade infantil.

Violento, o pássaro que luta contra os arames da gaiola? Ou violenta será a imóvel gaiola que o prende? Violentos, os adolescentes de periferia? Ou serão as escolas que são violentas? As escolas serão gaiolas?

Me falarão sobre a necessidade das escolas dizendo que os adolescentes de periferia precisam ser educados para melhorarem de vida. De acordo. É preciso que os adolescentes, é preciso que todos tenham uma boa educação. Uma boa educação abre os caminhos de uma vida melhor.

Mas, eu pergunto: Nossas escolas estão dando uma boa educação? O que é uma boa educação?

O que os burocratas pressupõe sem pensar é que os alunos ganham uma boa educação se aprendem os conteúdos dos programas oficiais. E para se testar a qualidade da educação se criam mecanismos, provas, avaliações, acrescidos dos novos exames elaborados pelo Ministério da Educação.

Mas será mesmo? Será que a aprendizagem dos programas oficiais se identifica com o ideal de uma boa educação? Você sabe o que é “dígrafo“? E os usos da partícula “se“? E o nome das enzimas que entram na digestão? E o sujeito da frase “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante“? Qual a utilidade da palavra “mesóclise“? Pobres professoras, também engaioladas... São obrigadas a ensinar o que os programas mandam, sabendo que é inútil. Isso é hábito velho das escolas. Bruno Bettelheim relata sua experiência com as escolas: “fui forçado (!) a estudar o que os professores haviam decidido que eu deveria aprender – e aprender à sua maneira...“

O sujeito da educação é o corpo porque é nele que está a vida. É o corpo que quer aprender para poder viver. É ele que dá as ordens. A inteligência é um instrumento do corpo cuja função é ajudá-lo a viver. Nietzsche dizia que ela, a inteligência, era “ferramenta“ e “brinquedo“ do corpo. Nisso se resume o programa educacional do corpo: aprender “ferramentas“, aprender “brinquedos“. “Ferramentas“ são conhecimentos que nos permitem resolver os problemas vitais do dia a dia. “Brinquedos“ são todas aquelas coisas que, não tendo nenhuma utilidade como ferramentas, dão prazer e alegria à alma. No momento em que escrevo estou ouvindo o coral da 9ª sinfonia. Não é ferramenta. Não serve para nada. Mas enche a minha alma de felicidade. Nessas duas palavras, ferramentas e brinquedos, está o resumo educação.

Ferramentas e brinquedos não são gaiolas. São asas. Ferramentas me permitem voar pelos caminhos do mundo. Brinquedos me permitem voar pelos caminhos da alma. Quem está aprendendo ferramentas e brinquedos está aprendendo liberdade, não fica violento. Fica alegre, vendo as asas crescer... Assim todo professor, ao ensinar, teria que perguntar: “Isso que vou ensinar, é ferramenta? É brinquedo?“ Se não for é melhor deixar de lado.

As estatísticas oficiais anunciam o aumento das escolas e o aumento dos alunos matriculados. Esses dados não me dizem nada. Não me dizem se são gaiolas ou asas. Mas eu sei que há professores que amam o vôo dos seus alunos. Há esperança...
(Folha de S. Paulo, Tendências e debates, 05/12/2001.)

3.8.10

O egoísmo do amor

Por: Isadora Garcia


Se algo aprendi nos últimos dias, sem dúvida é que o amor é um sentimento egoísta. Quando se ama, por mais que jure para si mesmo que o que mais importa nesse mundo é a felicidade da pessoa amada, o coração dará um jeito de enganar a razão e agir por conta própria, buscando a realização de suas vontades, sem nem pensar nas conseqüências de seus atos.


Quando se ama, o sentimento é tão forte, que ignora-se o do outro, pensando sempre ser o único dotado de tamanho amor. O que o outro sente, a maneira como o outro age, o ser apaixonado não busca entender nada extrínseco ao seu amor, o que resulta na formulação de certezas errôneas e, principalmente, egoístas.


O amor pode ser o melhor dos acontecimentos, mas pode também ser o pior. A capacidade destrutiva do amor é inacreditável. Como costumam dizer, o amor é cego, mas cego não para enxergar os defeitos do que se ama e sim para enxergar o mundo ao seu redor. O amor ignora a existência de outras coisas a sua volta, de outras pessoas e seus respectivos amores e é aí que entram os desentendimentos, as brigas, os atos impensados e a capacidade destrutiva do melhor sentimento de todos.


Sei que, mesmo depois de toda essa conclusão triste, quando chegar a minha vez de sentir o que por hora observo, agirei desta mesma maneira, passarei por cima de sentimentos alheios e deixarei feridas que não pretendo, que no futuro arderão mais ainda no meu próprio coração repleto de amor.

8.2.10

Entre a ciência e a sapiência

Rubem Alves

[...]

Se os olhos não serviram como metáforas, falarei sobre pianos. Mais precisamente, sobre os pianos Steinway, os mais perfeitos, que estão nas grandes salas de concerto do mundo. Os pianos Steinway são produzidos de forma absolutamente rigorosa e científica. Tudo neles tem de ter a medida exata. Todos têm de ser absolutamente iguais, para que o pianista não estranhe. Mas um piano, em si mesmo, é estúpido. Falta-lhes o poder de discriminação. Os pianos obedecem tanto a um toque de macaco, de um louco ou do Nelson Freire. Os pianos não são fins em si mesmos. São ferramentas. São construídos para tornar possível a beleza da música. Mas a beleza não é um objeto de conhecimento científico. Ninguém pode ser convencido a gostar de Bach por meio de raciocínios científicos. Não me consta que nenhum dos especialistas em construção de pianos da fábrica Steinway jamais tenha dado um concerto. Ciência eles têm. Mas falta-lhes a arte. Para que o piano produza beleza há os pianistas. Mas os pianistas nada sabem sobre ciência da construção dos pianos. O que eles sabem é tocar piano, coisa que não é científica... Os fabricantes de piano moram na caixa de ferramentas. Os pianistas moram na caixa de brinquedos.

A diferença está entre “ciência” e “sapiência”. Os teólogos medievais diziam que a ciência era uma serva da teologia. Parodiando eu digo que a ciência é uma serva da sapiência. A ciência é fogo que aumenta o poder dos homens sobre o mundo. A sapiência usa o fogo da ciência para transformar o mundo em comida, objeto de deleite. Sábio é aquele que degusta. Mas se o cozinheiro só conhecer os saberes que moram na caixa de ferramentas é possível que o excesso de fogo queime a comida e, eventualmente, o próprio cozinheiro...

27.11.09

Era uma vez uma menina que queria conhecer o mundo. Ela sonhava acordada com todas as paisagens - naturais ou não - que poderia encontrar em lugares distantes de sua simples realidade.

A menina era pequena - ou pelo menos assim a consideravam - e, muitas vezes, o mundo "intelectual" se fechava a ela como se dissesse "só daqui a uns anos..." e isso ela detestava.

Desde que descobriu o poder que as palavras têm ficou fascinada e não queria mais sair de perto dos livros. Para ela cada livro era especial, tinha seu cheiro próprio, que lhe reservava um ar bastante pessoal.

Jovem, mas interessada, a menina almejava ser conhecedora de toda a literatura, de toda a cinematografia, de toda a poesia presente nas paisagens de todo o mundo.

Era uma vez essa menina que hoje identifico como eu.

A identidade perdida

(ou qualquer outro título melhor que esse daí..)

Não é que eu não saiba quem sou, simplesmente não sei quem eu quero ser...



Queria tanto ser uma daquelas pessoas que já nascem querendo exercer uma daquelas profissões "pré-moldadas": "Mamãe, vou ser médico!" ou "Papai, serei advogado como você!", mas não sou e não dá pra chegar e dizer "Mamãe, quero ser uma escritora rica, famosa e adorada por todo tipo de leitor". Desculpe, mas não dá. Não dá pra simplesmente sentar e escrever e torcer para que o mundo goste; não dá para fazer uma faculdade de letras sem querer ser professora, apenas pelo gosto que tenho pelas palavras... E é por isso que me sinto perdida. Perdida e sozinha procurando descobrir o que eu quero fazer da minha vida. O que eu quero ser na vida... Por que não dá para simplesmente digitar no Google meu nome e descobrir quais as opções para alguém como eu, com os meus interesses? Queria que a resposta para todas as minhas interrogações caísse do céu, mas parece que o tempo fechou de vez e não será fácil achar uma brechinha para a luz do sol vir me iluminar. Sabe qual é a coisa mais angustiante? É justamente saber que só eu posso descobrir todas as respostas, basta eu para achar o caminho... E mais ninguém pode responder as minhas perguntas, e mais ninguém pode descobrir o que eu quero, e mais ninguém pode decidir por mim.

28.10.09

Cinco meses em cinco minutos

Por: Isadora Garcia


Estava estática. Não conseguia desviar meus olhos da profundidade dos teus. A distância que nos separava já era insignificante e eu sentia minhas mãos tremerem. Tudo o que eu havia passado até aquele momento despertava um sentimento que naquele instante fluía por todo o meu corpo.


Ao menor sinal de um movimento teu, meu coração pulsava enlouquecido. Foi quando colocastes uma mecha de meu cabelo atrás de minha orelha e aproximaste teu rosto, segurando carinhosamente o meu em tuas doces e delicadas mãos. Meus olhos se fecharam lentamente sem que eu tomasse conhecimento. Experimentava uma sensação única.


Quando, finalmente, depois de todos aqueles meses em que te esperei, nossos lábios se tocaram, um show de sensações se espalhou em meu peito. Queria te prender a mim para sempre, queria eternizar aquele momento, queria, ao mesmo tempo, sentir cada detalhe do teu movimento suave e atropelar tudo, liberando o que guardei só pra mim por tempo mais do que suportável.


Nossos rostos se afastaram então e achei difícil abrir os olhos. Quando finalmente o fiz, encontrei o brilho do teu olhar, o carinho da tua expressão, o calor do teu sorriso... Inacreditável. Sorri de volta, tímida, e deitei minha cabeça no teu ombro, entregando-me ao que foi o melhor abraço de todos que já havia dado.


Saber que todas as vezes que suportei a tua ausência, e mesmo a tua indiferença, valeram a pena me trazia mais do que felicidade. Uma lágrima teimosa acabou caindo, mas enxuguei-na de modo que não percebestes. Não importava mais o passado, o sofrimento. Iríamos enfrentar juntos tudo o que nos fosse colocado do caminho. E eu poderia finalmente ser feliz.

22.10.09

A esperança é a última que morre

Por: Isadora Garcia


"Lá, a felicidade assombra, porque, ora bolas, é o que se repete desde os tempos bíblicos, a esperança será a última a morrer. Sobrevivendo aos sonhos desmedidos, aos gestos bem intencionados, à miopia criada pelos hábitos, às palavras ditas sem pensar, à paralisia do orgulho, à sinceridade inconsequente, às desculpas que chegaram tarde demais."


"Fábula Urbana", Maurício Gouveia, "Clube da Leitura - modo de usar - vol I"




A esperança é um sentimento estranho. Ela não pede licença e se intromete nos nossos assuntos, quando vamos ver, ela já está em nós, alojada, e acabamos gostando, acabamos alimentando-na.

Dona do próprio nariz, a esperança mora em qualquer lugar. Onde ela vê que está surgindo uma certa tristeza, um certo ar de descrença ela se abriga, se instala. E não adianta reclamar, que ela é decidida e não vai embora até que você pense que nem ela.

A esperança é indestrutível, ela sabe que enquanto houver vida ela existirá, ela sabe de tudo, ela é dona de tudo. Mas nem por isso ela se acha, ela fica se gabando por aí... A esperança, na verdade, é bem modesta, até... Ela é camarada, anda com todo mundo, em qualquer época da história, em qualquer estação do ano, em qualquer lugar do planeta.

Para a esperança somos todos iguais e merecemos todos um bom futuro. Para ela há solução pra tudo e não há o que temer. A esperança acredita em cura pra corrupção, fim de guerras, paz mundial, fim do preconceito, cura pro câncer, cura pra AIDS, fim do desmatamento. Ela acredita em sorrisos, em abraços, em felizes para sempre, eu te amo, saudades, promessas, perdão.

Se todos fossem que nem a esperança o mundo seria mais verde, haveria mais arco-íris por aí, mais amor no coração, mais gente olhando pro céu sorrindo para seus próprios pensamentos. Mas a esperança não vai desistir nunca. A meta dela é convencer a nós todos de que toda a bondade é possível. A esperança tem uma finalidade. A esperança é a última que morre, mas no dia em que ela conseguir alcançar seu objetivo, ela promete que vai se mandar. E aqui embaixo ficaremos todos morrendo de saudades dela, mas ainda assim seremos felizes, repetiremos seus ensinamentos todos os dias, credores de um futuro muito melhor para todos.

13.9.09

“Saldade”


Sim, saldade com L mesmo, deixe que eu a escreva como quero, que essa minha saldade vem de mim e não de você, então sou eu sua dona e sua criadora. Escrevo-a assim, neologisticamente, porque essa não é uma saudade comum, batida, que já deu muito o que falar. A minha saldade tem gostinho de sal, tem presença de inerente tempero no meu dia.


Basta-me acordar logo de manhãzinha que ela vem rodear o meu espírito e me lembrar de coisas que há muito minha cabeça havia arquivado no baú do esquecimento. Sinto de repente novamente então todos os efeitos de um tempo que já passou, mas que, simultaneamente, se faz presente em cada inspiração que dou.


Sinto a falta da minha infância, daquela versão simples e inocente do meu eu atual, que podem até com razão apontar como jovial, mas que muito já aprendeu e, desde então, muito mudou e cresceu.


Lembro com um aperto no peito da minha casa, do lugar onde nasci e fiz muitos amigos. Por lá só tive coragem de passar duas ou três vezes desde que deixei, forçada, seu conforto maternal. Ao olhar com olhos molhados as paredes daquele antigo edifício, pesou em mim uma culpa enquanto li as letras da palavra abandono nas velhas janelas.


As memórias que armazeno em local privilegiado não me deixam mentir e podem até doer, saldosamente arder, mas são bens que guardo a sete chaves com amor e proteção animal.


Sonho acordada desde noites de natal até fatos que se repetiam diariamente. Assisto um filme em preto e branco nas lentes da minha infância e (re)vejo almoços de domingo do chefe (nos dois sentidos). Seus cabelos brancos já estavam lá, mas naquela época era tão diferente, tão vivo, ativo, presente em minha vida.


Limpo hoje a poeira de tais lembranças e choro, criança, a dor de outro tempo. Minha avó, tão atenta, estava ali ao meu lado e mal a notava. Hoje sofro a mente alterada de alguém que não mais me reconhece. Hoje lamento não ter aproveitado como deveria seus afagos e palavras de carinho.


Quero chorar agora todas as tardes na varanda, todos os cantos dos pássaros, todas as brincadeiras e correrias pela casa. Quero lavar de mim toda a tristeza de ter perdido uma época tão boa e poder continuar guardando as lembranças, mas que estas só me tragam sorrisos.


Revivo saldosa desde os momentos de alegria até os de tristeza. Guardo em mim tudo o que posso e penso não mais cometer o mesmo erro. Vou viver com os olhos bem abertos. Vou notar cada detalhe do céu que cobre minha janela de luz, vou distribuir palavras repletas de amor a todos os afetos da minha vida.


De hoje em diante não mais me pesará a saldade e sim completará a felicidade com a qual olharei para trás.