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3.3.23

Evidências salgadas

 Isadora Garcia

 

Minhas lágrimas pegam

A via expressa dos

Destinos traçados

Em meu rosto.

 

Sangue transparente

Que arde e acorda

As feridas abertas

 

Quase não sinto

Tal o costume

 

À dor

18.12.19

Fugaz



Isadora Garcia

É difícil esquecer algo que nunca houve
É impossível superar o amanhã que nunca chegou
Entender não é ao menos opção
Um vazio escuro
Surdo barulho
Oco
Vão

Talvez seja apenas um delírio remanescente
Resíduo de vidas que fogem à memória
Arde uma dor que nunca me foi dada
Herança de um canto qualquer dessa carne

Aqui
No mais calmo dos instantes
Sinto o eco do som translúcido
Como de passagem
Eu, apenas meio,
Não sou digna de razão

Calo o sentimento
Ouço enquanto me perfura
Me atravessa
Aguardo
Aceito
O sal escorre fechando o fato

E nunca houve.
E nunca foi.
Acordo perdida
Mas o resíduo fica
E um dia me lembrarei do seu calor.

6.8.17

Em busca do nada

Isadora Garcia

Perseguir um sonho

até que ele se perca

e a angústia de encontrá-lo

se torne a nova perseguição.

15.4.14

Silêncio dobrado

Isadora Garcia

Você foi alegria
(tristeza)
e sorrisos

Você foi esperança
(ilusão)
e planos

Você foi amor
(ferida)
e desejos

Você foi tristeza pela alegria
Você foi ilusão pela esperança
Você foi ferida pelo amor

Como pôde reunir duas numa face una?
Como pude enxergar uma numa face dúbia?
Como pôde?
Como pude?

Amor ilusório
Esperança triste
Alegria ferida

Tristeza amorosa
Ferida esperançosa
Ilusão alegre

Duas faces opostas
unidas num único silêncio
d... o... b... r... a... d... o...
de duas bocas veladas. 

26.3.14

Pacífica

Isadora Garcia

A dor passa,
A arte fica.
Pacifica.

20.12.13

.

Isadora Garcia

Vazio.
Silêncio.
Solidão.
Sua ausência me perturba
Seus olhos me faltam
Sua alegria me carece.
Choro o vazio da casa
Choro o vazio do peito
Choro a partida
Choro a impossibilidade do regresso
Choro.
Estico minha mão e todo o vazio
Mas o nada não é macio como você
Mas o nada não conforta
O nada não me olha
O nada não me entende.
Procuro presença
na ausência
Procuro conforto
na dor.
Não há.
Não há.
Não há.

Ficou o nada







e o nada não responde.



16.5.13

A cena final

Isadora Garcia

    Cada ponto final era como uma facada, cada vez alcançando espaços mais íntimos nas entranhas da velha. Era a última vez, ela sabia. Não haveria um próximo encontro, não haveria mais futuro, não haveria mais nada, era o fim. Não estava preparada para o adeus ainda, ela repetia, enquanto seus olhos, já embaçados pela emoção, deixavam escapar uma lágrima, única representação verdadeiramente física de seu sofrimento. Mas não havia mais como desistir, o acordo estava feito e este era o momento do adeus. As dores das feridas ardiam e matavam a escritora por dentro. Ela não podia parar, ou não chegaria ao fim, tinha consciência de sua limitação. Era pouco o ar que chegava a seus pulmões, estava morrendo. Morria junto com o fim da história que escrevia. Não era um fim como os outros, ah!, não era! Este fim marcava, também, o término de uma vida conjunta, de um amor incompreensível a corações humanos. A velha amava aquele homem com mais intensidade do que saberia explicar. E o fato de que dela dependia a existência dele queimava por dentro. Ele só morreria por causa dela, era tudo sua culpa. Seu corpo tremia. Estava ponto um fim à vida de ambos. A velha morria por matar seu personagem e ele morria em virtude da morte de sua criadora. Não havia alternativa, não havia saída. Ela soluçava. Seu sangue encontrava dificuldade para percorrer o caminho até seu coração. O barulho das teclas acompanhava as facadas que lhe tiravam a vida. Chegara a cena final do último dos romances figurados pelo vilão. Ele já avistara sua vitma: parada, sentada diante de uma máquina de escrever. Este seria o último assassinato, seria o golpe definitivo, mataria vitma e vilão, estranhamente misturados em seus papéis. O homem já estava próximo o suficiente, sedento por sangue, quando percebera que sua presa chorava, consciente do próximo evento. Mas isso pouco lhe importava. Este era seu destino, este era seu ofício. E com um último suspiro, a velha escreveu o ponto final.

12.8.12

Queria poder te abraçar e deixar as lágrimas rolarem na certeza de que elas são capazes de falar coisas que as palavras jamais aprenderão.

27.5.12

Memória fraca


Isadora Garcia

           A realidade chegou cortante, dilacerando tudo ao seu redor. Meu coração, que antes mascarava certezas, fantasiando dúvidas, hoje se vê rasgado por verdades nuas e cruéis. Não há qualquer preocupação da vil assassina em atenuar os estragos que causa. O real machuca de propósito, corta com vontade, que é para ver se o coração aprende de uma vez por todas a lição. Mas ele não aprende... Ele não aprende...

20.2.12

A última cena

Isadora Garcia

Para Francisco Pedro Garcia


Às vezes a lembrança da tua lágrima

Vem, sorrateira, me visitar.

Não sei se chora mais a lembrança

Ou o coração a lembrar.

20.5.11

Discursos Calados II

Isadora Garcia

Pensamentos via eu fluírem por teus olhos
Sentimentos tinha eu escorrendo pelo peito
Mas nada disso mudava a presente ocasião:
Era o silêncio que reinava em nossa separação.

Buscando respostas no passado recente
Seguia frustrada o diálogo ausente
Torcendo então para que negasses o dito
E desistisses daquilo rápido e aflito.

Arrastava-se dolorosa dos instantes a tardança
Morria no meu peito lentamente a esperança
Temia a obrigação de guardar-te em lembrança

Palavras, cega, eu esperava
Ausentes sons tu me deixavas
Tua boca muda já me faltava...

4.9.10

Um adeus tardio

Isadora Garcia
Para Francisco Pedro Garcia
.
.
Tento apegar-me a memórias difusas
de um passado feliz ao teu lado.
Eras tão sábio, tão erudito,
um homem que construiu uma vida de glórias
com o suor e a vontade de vencer
que guardava no peito.
.
As lágrimas não param de rolar meu rosto.
Choro com a fraqueza de uma criança,
tão pequena frente ao mundo, tão impotente.
Choro com a força de um adulto,
que, infelizmente, compreende o que se passa
e se arrepense como nunca pensou ser possível.
.
Foste embora, sim, já era previsto,
mas a dor que suporto, esta não me era conhecida.
Foste embora e me deixaste tua lágrima,
cena que ficará presa, vívida em mim
fazendo companhia para o aperto em meu peito.
.
Perdoe o vazio de minhas palavras caladas.
Se pudesse, berrava agora meu amor para o mundo.
Perdoe meus erros, me perdoe...
Só agora vejo a importância
que teria tido aquele adeus.

6.6.10

Um ano de muito peso

– um desabafo há muito tempo engasgado

Vamos chegando na metade do ano e eu, adiantada, faço um balanço dele. Este ano tem sido tão pesado, tão repleto de emoções fortes. Ocorreram grandes coisas – boas e ruins – e a carga que seguro por estar vivendo tais experiências é grande. Estou esgotada, se é que me é permitido admitir.


Esse ano vi amizades se desfazendo, pessoas indo embora com raiva de mim... é impossível descrever o peso com que tais lágrimas correm cobrindo o meu rosto. Vê-los partir e nada poder fazer para que pelo menos lembrassem de mim com sorrisos...


Esse ano percebi meus avós mais doentes do que nunca, vivendo cada dia com menos forças, com menos vontade, sendo que qualquer um poderia lhes ser o último. E eu (dói demais admitir) tentando fingir que está tudo bem, fechando os olhos para o presente, tentando atar à minha mente memórias já difusas de dias alegres ao lado deles quando ainda sorriam e conversavam comigo.


Esse ano resolvi me preocupar um pouco menos com a escola e com a escolha do vestibular, achando que, assim, aliviaria as tensões que conheci ano passado e nas primeiras semanas desse. Mas, pelo visto, minha intenção não foi muito bem aceita pelos meus pais, que acham que, por se tratar do último ano, eu deveria estar dando mais de mim, esforçando-me mais do que nunca para conseguir realizar as expectativas deles em relação à minha colocação no vestibular. É claro que eu gostaria de ir muito bem, mas, sinceramente, prefiro relaxar minha mente e passar junto da maioria do que me estressar como eu estava me estressando para conseguir um lugar de mais prestígio.


Esse ano conheci mais sobre pessoas maravilhosas, que hoje me são amigos essenciais. E são essas pessoas que mantém vivo em meu rosto o sorriso que tento carregar todos os dias. Sim, nesse ano, apesar de tudo, sorri. Sorri muitas e muitas vezes graças às minhas amizades, graças ao sentimento maravilhoso de amar e ser amado sem dar ou querer em troca absolutamente nada, apenas a certeza de que amanhã será um dia alegre, afinal, será mais um dia ao lado dos meus amigos.


28.3.10

Início do fim

Isadora Garcia


Aqui dentro

pesa a dor da culpa.

Saber como te magoei

é meu castigo.


Se algo pudesse fazer

para rever o teu sorriso,

saiba, já teria feito.


Por favor não sofra,

não vale a pena,

eu não valho a tua dor.

4.2.10

Impossível descrever



Isadora Garcia



Sinto como se a dor em meu peito fosse tanta
Que me impedisse de andar,

De sair do lugar.



Sinto como se me afundasse,

Perdida num lugar estranho a mim.



Sinto como se minhas infinitas lágrimas

Fossem tudo o que eu pudesse dizer.



Sinto como se minha cabeça pesasse,

Cheia das tentativas fracassadas.

Dos discursos ensaiados,

Das previsões incertas.



Sinto-me inútil,

Impotente quanto a um assunto

Impossível de descrever.