12.8.12

Queria poder te abraçar e deixar as lágrimas rolarem na certeza de que elas são capazes de falar coisas que as palavras jamais aprenderão.

4.8.12

Privação ideológica*


Isadora Garcia

Violentamente, puxaram meus pés de volta ao chão, amarraram minhas asas e vendaram-me os olhos. Estava voando muito alto, diziam. Alcançando ideias perigosas, justificavam. Tolos! Vendas nunca serão negras o suficiente, nem cordas serão fortes o bastante para findar os sonhos e cantos de minha alma.


*Adaptação de Sonhar é permitido? para um concurso de mini-contos.

O mar da vida


Isadora Garcia

O barco de minha vida navega por mares de incerteza.
Mas sob tais mares, correm águas de sonhos,
Correm desejos e vontades, corre o canto de minha alma.
Me pego a refletir sobre o verdadeiro norteador da jornada:
Serão as preocupações ou as paixões? Medo ou anseio?
Creio que não caiba a mim a descoberta,
Creio que meu roteiro não preveja a elucidação
Daquilo que seria o maior enigma da vida,
Daquilo que, de fato, nos move e nos orienta:
Nossas dúvidas, nossas escolhas, nosso caminho.

21.6.12

Sonhar é permitido, dizem os jornais

Isadora Garcia

-Sonhar é permitido, está nos jornais! E, olha só! Agora também está liberado viver para realizar seus sonhos!

-Será?! Não acredito! Não é possível!

-Pois acredite, rapaz! Foi decretado, virou lei!

-Mas... Logo eu que... Foram tantos anos tentando enterrar meus sonhos, tentando ignorar seus chamados... - Pausa - E se estiverem mortos?!?!

-Pois trate de reanimá-los, meu caro, ou morrerás tu!

Vozes guardadas

Isadora Garcia

No silêncio da noite, cautelosa, tento despertar uma das vozes que mora em meu peito. Todo cuidado parece pouco na delicada tarefa de interromper-lhe o sono sem causar-lhe incômodo. Quero ouvi-la, quero descobrir quais doces palavras ela anda guardando para si, embora haja sempre o risco de serem amargas suas palestras.

Um pouco do que me compõe

Isadora Garcia

Quero levar ao mundo
um pouco de mim.
Palavras, que sejam.
Rimas, enfim.

Sei que, para alguns,
serão mais do que sons.
Além de verem riscos,
lerão diversos tons.

Quero levar-lhes um pouco
do que me compõe.
Esperar que aceitem
o que se propõe.

Talvez seja preciso
uma busca cautelosa,
exercício ardiloso,
tarefa grandiosa.

Pouco devo dizer,
é importante definir.
Desejo que, ao me lerem,
muito(s) possam ouvir.

1.6.12

Quino


31.5.12

Sonhar é permitido?


Isadora Garcia 

Descobri a magia e o poder das palavras aos poucos. O mistério que as envolve foi me fascinando de tal forma, que não pude ignorá-lo. Ele tornou-se autor de meus sonhos e me incentivou a buscar na beleza das letras a possibilidade de externar sentimentos, fantasias e desejos. A descoberta desta possibilidade infinita de provar tão doce sabor me encantou e, leve e sorridente, dei asas a sonhos que me levaram (e ainda levam!) para mundos fantásticos. A coisa foi tomando dimensões que, a meus olhos, eram magníficas, mas, na ótica da fria realidade, eram preocupantes. Foi então que começaram a puxar meus pés de volta para o chão, a me impor vendas e cordas, a cortar minhas asas, que cultivava com tanto orgulho. Que dor! Que horror! Aquilo me doeu, como me doeu! Mas as vendas não eram negras o suficiente e as cordas não tinham a força requerida para parar os cantos de minha alma. Durou pouco o tempo em que aceitei esta prisão. Logo minhas asas já estavam novamente fortalecidas e foi então que dei o maior salto de todos! Ah, que maravilha o vento a me tocar o rosto! Era incrível a leveza depois da privação! Hoje cultivo meus sonhos e meu imaginário, confiante. Muitas vezes ainda sinto a queimação das cordas em meus pés, tentando me prender a um mundo de limitações, mas logo vêm as palavras a me abrir os olhos, a levantar meu rosto e me apontar o céu, moradia eterna da alma que acredita.

27.5.12

Memória fraca


Isadora Garcia

           A realidade chegou cortante, dilacerando tudo ao seu redor. Meu coração, que antes mascarava certezas, fantasiando dúvidas, hoje se vê rasgado por verdades nuas e cruéis. Não há qualquer preocupação da vil assassina em atenuar os estragos que causa. O real machuca de propósito, corta com vontade, que é para ver se o coração aprende de uma vez por todas a lição. Mas ele não aprende... Ele não aprende...

26.3.12

Sozinho nunca está o coração que ama


 Isadora Garcia

    Hoje acordei e havia um pássaro em minha janela. Aproximei-me e estranhei a calma do pequenino frente ao que deve parecer um gigante para ternos olhinhos, tão belos que são! Após desfrutar da tal doce surpresa, voltei à rotina incessável dos dias, quase cega de tão automática. A comida sem gosto das horas poucas da manhã, a água caindo em meu corpo e o que devia ser o milésimo engarrafamento marcado pela mesma cena de sempre me impediram de reparar uma presença pequena, discreta, mas constante.
              Foi divagando em meio às explicações do professor, sempre ininterrupto em suas palavras complexas, que o notei ao meu lado. Era o pássaro da minha janela, era ele a me vigiar! Trocamos perguntas explícitas e mudas, buscando respostas em faces tão distintas, que impossível nos era ler nos traços um do outro o que figurava nosso diálogo.
          Tentei fotografar cada pena colorida. Procurei memorizar em detalhes aquele momento, aquela conversa silenciosa calorosamente a me inquietar. Mas quanto mais me preparava para o susto de sua partida, mais ele me dava certeza da estabilidade de sua presença. Não nos separaríamos mais, isto era óbvio! Qualquer um seria capaz de ler tais verdades nos detalhes daquele momento, mas éramos nós os únicos a dançar sob o som daquela melodia. Os dias seguintes vieram e cada vez mais me alegrava nossa parceria. Nunca mais me via a sós. Nem na dor, nem na alegria. Protagonistas eram dois dali em diante na poesia.