27.7.22

Sempre existimos

 Isadora Garcia


E onde está a nossa história

Nesse mar de livros publicados?

Cadê o nosso amor sendo contado

Quando há tantos outros repetidos?


Pra todo lado é o mesmo enredo

Mas em canto algum encontro o nosso.

Onde estão os nossos amores?

Onde estão os nossos nomes?


Um legado incontável,

Um silêncio memorável,

Mas isso acaba aqui.


Se não as achei,

Eu mesma as crio.

Se não me contaram,

Às próximas, escrevo.

23.7.22

Impulses

Isadora Garcia

Need drove you here.

Yet you’re still

On hold

Unmoving

Waiting

For what?

You ask

Yet can you hear?


15.7.22

Void

Isadora Garcia

And just like time

They slip away

The more you wait

The less they stay


You blink, they shrink

You wait too long

You set the tone


Only in memory

can they last


A formless…


.

1.4.22

Tinta transparente

Isadora Garcia 


Cai a noite e pinto versos

com tinta transparente 

Ainda fresca ela mancha,

se torna evidente

Sorte a minha que o mundo

não tem a mesma lente.

Preso no vento

Isadora Garcia


Censura não cura do erro a origem

Censura tão dura faz-se vertigem 

Cala o que não se quer ouvir

Mata o que não se quer sentir.


Antes inofensivo,

o pensamento livre era

como uma flor cheirosa

no meio do caminho.

Inesperada, prazerosa

Digna de uma foto e um sorriso.

 

Hoje acorrentado,

o pensamento preso gera

aquela isca maldosa

no seio do meu ninho.

Disfarçada, misteriosa

Dona de um fogo e um feitiço.


Encerra, leva daqui, peço.

Enterra, nega existir, peco.


Mas só quem canta

as verdades sentidas

Só quem abre

as imaturas feridas 


É o vento.

Seu calento,

Meu sustento.


Uma brisa e foi.

Mais um sopro e fui.


17.12.21

Edge

 Isadora Garcia


It was right there.

Almost consuming her whole

Almost eating her soul

It was right there.


It was right there.

One blink, it'd be it

One step, it'd slit

It was right there.


A massive ache

All at stake

A huge mistake


Loud thoughts

Tight knots

She would!

She could...

But she did not.

18.12.19

Fugaz



Isadora Garcia

É difícil esquecer algo que nunca houve
É impossível superar o amanhã que nunca chegou
Entender não é ao menos opção
Um vazio escuro
Surdo barulho
Oco
Vão

Talvez seja apenas um delírio remanescente
Resíduo de vidas que fogem à memória
Arde uma dor que nunca me foi dada
Herança de um canto qualquer dessa carne

Aqui
No mais calmo dos instantes
Sinto o eco do som translúcido
Como de passagem
Eu, apenas meio,
Não sou digna de razão

Calo o sentimento
Ouço enquanto me perfura
Me atravessa
Aguardo
Aceito
O sal escorre fechando o fato

E nunca houve.
E nunca foi.
Acordo perdida
Mas o resíduo fica
E um dia me lembrarei do seu calor.

6.8.17

Em busca do nada

Isadora Garcia

Perseguir um sonho

até que ele se perca

e a angústia de encontrá-lo

se torne a nova perseguição.

17.11.14

Casamento moderno

Isadora Garcia

Os convidados se aproximavam da Igreja de cabeças baixas, teclando freneticamente e correndo os olhos de um lado a outro da telinha. Erguiam suas cabeças num movimento quase sincronizado à medida que seus pés diminuíam a distância para os grandes degraus de pedra.
Ao cruzarem os belíssimos batentes e adentrarem o amplo salão, dirigiam-se aos bancos compridos de madeira escura, a luz dos aparelhos celulares a iluminar seus rostos. Sentavam-se e, num ritual ensaiado, digitavam seus números de telefone no painel eletrônico nas costas dos bancos.
A Igreja enchia rapidamente e já se via o padre no centro do altar. Assim que todos se acomodaram e ergueram seus olhares, o pequeno ajudante, sobrinho da noiva, ergueu um controle remoto e, com o peito inflado tamanho era o orgulho de desempenhar tal papel, coordenou a descida de um grande telão sobre o altar.
                Com um sorriso bondoso, o padre recebeu do menino o controle e deu seguimento ao ritual, pressionando o botão que ligou o telão ornamentado de um ouro brilhante. No centro da tela, um único item bastante familiar indicava a todos a presença de Wi-fi no ambiente. Os que haviam guardado os celulares nos bolsos os retiraram novamente.
                Mais um clique no botão e o padre revelou o nome da rede, Deus_é_10, e a senha que todos deveriam digitar para ter acesso: Amém. O som de alguns teclados ecoou por um instante no interior da Igreja.
                O pequeno ajudante estendeu ao padre um tablet, permitindo que ele acessasse o Whatsapp e abrisse a conversa Casamento Fabiana e Rodrigo. Os contatos de todos os presentes já se encontravam no grupo, graças à eficiência do sistema eletrônico configurado pelo Prefeito, presente dado na inauguração do Programa Fiéis em Rede.
                Com o noivo devidamente posicionado à sua esquerda, o padre deu início à cerimônia, enviando um áudio ao grupo. Todos imediatamente pressionaram seus aparelhos aos ouvidos e olharam para a porta da Igreja. Com a marcha nupcial em suas cabeças, observaram a noiva sorridente dar os passos em direção ao altar.
                Algumas crianças bocejavam, outras sacodiam as pernas penduradas nos bancos, já inquietas. Parentes menos próximos conferiam outras conversas no aplicativo enquanto aquele instante eterno não se encerrava.
                Um de frente para o outro, o casal sorriu enamorado. Rodrigo enviou um emoticon apaixonado ao grupo e arrancou suspiros de algumas moças: era um rapaz sensível. Sua dedicação em responder as mensagens de Fabiana com rapidez foi um dos motivos que manteve o casal junto por todos aqueles sete meses.
                A cerimônia decorreu sem grandes problemas, o sim dos noivos acompanhado de várias exclamações demonstrando o entusiasmo que os preenchia naquele momento. O padre anunciou, enfim, o casamento dos jovens, que se beijaram após trocarem corações e emoticons apaixonados.
                Os mais emotivos choravam, os mais entusiasmados mandavam alegres parabéns em áudio para o grupo. Os noivos saíram da Igreja de mãos dadas sob a chuva de arroz e palmas. Tradições bobas, sabe como é.
                O carro arrancou levando os recém-casados para a comemoração do dia mais esperado de suas agendas e os convidados mais lentos eram olhados com raiva pelos que chegavam e digitavam seus números para serem adicionados no grupo Batizado da Aninha.


15.4.14

Silêncio dobrado

Isadora Garcia

Você foi alegria
(tristeza)
e sorrisos

Você foi esperança
(ilusão)
e planos

Você foi amor
(ferida)
e desejos

Você foi tristeza pela alegria
Você foi ilusão pela esperança
Você foi ferida pelo amor

Como pôde reunir duas numa face una?
Como pude enxergar uma numa face dúbia?
Como pôde?
Como pude?

Amor ilusório
Esperança triste
Alegria ferida

Tristeza amorosa
Ferida esperançosa
Ilusão alegre

Duas faces opostas
unidas num único silêncio
d... o... b... r... a... d... o...
de duas bocas veladas.