Se os olhos não serviram como metáforas, falarei sobre pianos. Mais precisamente, sobre os pianos Steinway, os mais perfeitos, que estão nas grandes salas de concerto do mundo. Os pianos Steinway são produzidos de forma absolutamente rigorosa e científica. Tudo neles tem de ter a medida exata. Todos têm de ser absolutamente iguais, para que o pianista não estranhe. Mas um piano, em si mesmo, é estúpido. Falta-lhes o poder de discriminação. Os pianos obedecem tanto a um toque de macaco, de um louco ou do Nelson Freire. Os pianos não são fins em si mesmos. São ferramentas. São construídos para tornar possível a beleza da música. Mas a beleza não é um objeto de conhecimento científico. Ninguém pode ser convencido a gostar de Bach por meio de raciocínios científicos. Não me consta que nenhum dos especialistas em construção de pianos da fábrica Steinway jamais tenha dado um concerto. Ciência eles têm. Mas falta-lhes a arte. Para que o piano produza beleza há os pianistas. Mas os pianistas nada sabem sobre ciência da construção dos pianos. O que eles sabem é tocar piano, coisa que não é científica... Os fabricantes de piano moram na caixa de ferramentas. Os pianistas moram na caixa de brinquedos.
A diferença está entre “ciência” e “sapiência”. Os teólogos medievais diziam que a ciência era uma serva da teologia. Parodiando eu digo que a ciência é uma serva da sapiência. A ciência é fogo que aumenta o poder dos homens sobre o mundo. A sapiência usa o fogo da ciência para transformar o mundo em comida, objeto de deleite. Sábio é aquele que degusta. Mas se o cozinheiro só conhecer os saberes que moram na caixa de ferramentas é possível que o excesso de fogo queime a comida e, eventualmente, o próprio cozinheiro...
Quando sinto pairar sobre mim a intensidade do teu olhar, é como se todo o ar fugisse, escapulisse de meus pulmões. A vivacidade que teus olhos têm, o carinho que me traduzem simplesmente exerce um poder absoluto sobre os meus sentidos.
Quando tu diriges ao meu rosto essa arma ao mesmo tempo doce e letal, sinto minhas bochechas arderem. Tudo se apaga magicamente e no momento seguinte só o que enxergo é o brilho do teu olhar.
De perto tento inutilmente decifrar o código expresso por teus olhos, mas a única resposta que encontro é a descompassada aceleração em meu peito.
7.12.09
Tempo de menos,
Vontade demais.
Tempo demais,
Talento de menos.
27.11.09
Era uma vez uma menina que queria conhecer o mundo. Ela sonhava acordada com todas as paisagens - naturais ou não - que poderia encontrar em lugares distantes de sua simples realidade.
A menina era pequena - ou pelo menos assim a consideravam - e, muitas vezes, o mundo "intelectual" se fechava a ela como se dissesse "só daqui a uns anos..." e isso ela detestava.
Desde que descobriu o poder que as palavras têm ficou fascinada e não queria mais sair de perto dos livros. Para ela cada livro era especial, tinha seu cheiro próprio, que lhe reservava um ar bastante pessoal.
Jovem, mas interessada, a menina almejava ser conhecedora de toda a literatura, de toda a cinematografia, de toda a poesia presente nas paisagens de todo o mundo.
Era uma vez essa menina que hoje identifico como eu.
Não é que eu não saiba quem sou, simplesmente não sei quem eu quero ser...
Queria tanto ser uma daquelas pessoas que já nascem querendo exercer uma daquelas profissões "pré-moldadas": "Mamãe, vou ser médico!" ou "Papai, serei advogado como você!", mas não sou e não dá pra chegar e dizer "Mamãe, quero ser uma escritora rica, famosa e adorada por todo tipo de leitor". Desculpe, mas não dá. Não dá pra simplesmente sentar e escrever e torcer para que o mundo goste; não dá para fazer uma faculdade de letras sem querer ser professora, apenas pelo gosto que tenho pelas palavras... E é por isso que me sinto perdida. Perdida e sozinha procurando descobrir o que eu quero fazer da minha vida. O que eu quero ser na vida... Por que não dá para simplesmente digitar no Google meu nome e descobrir quais as opções para alguém como eu, com os meus interesses? Queria que a resposta para todas as minhas interrogações caísse do céu, mas parece que o tempo fechou de vez e não será fácil achar uma brechinha para a luz do sol vir me iluminar. Sabe qual é a coisa mais angustiante? É justamente saber que só eu posso descobrir todas as respostas, basta eu para achar o caminho... E mais ninguém pode responder as minhas perguntas, e mais ninguém pode descobrir o que eu quero, e mais ninguém pode decidir por mim.
11.11.09
Orfandade
Isadora Garcia
Estou cansada de ver em meus textos
A letra de outrem.
A inspiração se confunde com o plágio
E desisto do escrito cuja autoria é de ninguém.
Metade
Oswaldo Montenegro
Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca;
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio...
Que a música que eu ouço ao longe
Seja linda, ainda que tristeza;
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante;
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade...
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta
A um homem inundado de sentimentos;
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo...
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço;
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada;
Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão...
Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflita em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
A outra metade eu não sei...
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço...
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para faze-la florescer;
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção...
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade... também.
Estava estática. Não conseguia desviar meus olhos da profundidade dos teus. A distância que nos separava já era insignificante e eu sentia minhas mãos tremerem. Tudo o que eu havia passado até aquele momento despertava um sentimento que naquele instante fluía por todo o meu corpo.
Ao menor sinal de um movimento teu, meu coração pulsava enlouquecido. Foi quando colocastes uma mecha de meu cabelo atrás de minha orelha e aproximaste teu rosto, segurando carinhosamente o meu em tuas doces e delicadas mãos. Meus olhos se fecharam lentamente sem que eu tomasse conhecimento. Experimentava uma sensação única.
Quando, finalmente, depois de todos aqueles meses em que te esperei, nossos lábios se tocaram, um show de sensações se espalhou em meu peito. Queria te prender a mim para sempre, queria eternizar aquele momento, queria, ao mesmo tempo, sentir cada detalhe do teu movimento suave e atropelar tudo, liberando o que guardei só pra mim por tempo mais do que suportável.
Nossos rostos se afastaram então e achei difícil abrir os olhos. Quando finalmente o fiz, encontrei o brilho do teu olhar, o carinho da tua expressão, o calor do teu sorriso... Inacreditável. Sorri de volta, tímida, e deitei minha cabeça no teu ombro, entregando-me ao que foi o melhor abraço de todos que já havia dado.
Saber que todas as vezes que suportei a tua ausência, e mesmo a tua indiferença, valeram a pena me trazia mais do que felicidade. Uma lágrima teimosa acabou caindo, mas enxuguei-na de modo que não percebestes. Não importava mais o passado, o sofrimento. Iríamos enfrentar juntos tudo o que nos fosse colocado do caminho. E eu poderia finalmente ser feliz.