17.8.09

Desafio I: contar uma história apenas com descrições do cenário.


Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada... mas tinha história.

Por: Isadora Garcia


A casa por fora parecia comum, como qualquer outra casa antiga, mas um alguém minimamente atento que a adentrasse, perceberia logo que suas cortinas velhas e rotas guardavam muitas histórias.

A porta de estilo imperial com dobradiças quase quebradas rangia quando era aberta e proporcionava a primeira visão do interior do que foi a morada de Dona Lourdes. O hall era esguio como a senhora e prolongava-se forrado com um tapete vermelho já gasto.

Ao fim do estreito corredorzinho havia uma grande sala que abrigara toda uma vida repleta de amores e aventuras e muitos “era uma vez”. A parede era pouco vista, já que cercando a sala havia estantes com livros e mais livros, muitas vezes equilibrados por sei lá o quê que os impedia de desabarem todos no chão empoeirado.

Com os mais variados títulos, os livros falavam sobre os mais variados assuntos, mas duas coisas eram comuns a todos eles: a autora e o vilão da história. Sim, muitas pessoas escrevem sagas sobre um herói, mas o que ali se encontrava era praticamente uma enciclopédia relatando diversos episódios envolvendo diversas pessoas, mas cujo fim era traçado sempre pelo mesmo homem traiçoeiro.

Numa pilha no chão estavam agrupados diversos discos de vinil de música clássica que pareciam ser a única coisa que anos antes mantinha a casa alegre. A música era tocada numa vitrola belíssima que ficava no centro do cômodo sobre uma mesa de três pés.

A sala inteira, por maior que fosse, possuía apenas duas saídas: uma para a cozinha e outra para o quarto. A cozinha era praticamente circular e seus artefatos de tecnologia muito escassa marcavam a morada de alguém que provavelmente evitava shoppings center e qualquer tipo de local onde se encontraria facilmente eletrodomésticos projetados para facilitar a vida das pessoas do século XXI.

O cheiro de café era a única coisa que parecia ter sobrevivido aos longos anos em que a casa se abasteceu a si mesma, sem ajuda de vida humana. Nos armários jaziam antigos pacotes do negro grãozinho que, com certeza, era a bebida favorita de alguém, pela quantidade exagerada que fora ali abandonada.

O quarto era um ambiente bastante parecido com o restante da casa, muito antigo, mas que contava com um diferencial marcante: a luminosidade. A sacadinha que vivia com as portas escancaradas permitia uma luz natural incrível que privilegiava o assento diante de uma pequena mesinha de madeira. A mesa sustentava uma máquina de escrever bastante marcada pelo uso contínuo que ignorava hora, tempo ou época.

Ao banheiro situado num cômodo cuja entrada era no canto do quarto pouco se deve acrescentar. Era um banheiro como outro qualquer com o diferencial de não apresentar espelhos.

O grande e rústico armário do quarto assistiu a muitas caminhadas indecisas em busca de inspiração e pôde presenciar o último dos acontecimentos humanos na casa. Humano nem tanto, o referido acontecimento marca o perigo que pode representar uma vida solitária acompanhada de um ser simultaneamente real e imaginário de mente sanguinária.

Pelo chão do quarto estavam espalhadas várias folhas brancas rabiscadas com o mesmo tipo de desenho: a silhueta de um homem prestes a assassinar uma vítima. A vítima parecia ser a dúvida do autor dos desenhos, pois ora era mulher, ora homem. Ora jovem, ora idoso. O único desenho não riscado, porém, era um inacabado onde uma velhinha sentada digitava o ponto final de uma história de terror.

2 comentários:

Tati Martins disse...

Oi, Isa!
Vou lhe enviar um email agora com meus comentários. Pense neles e continue sempre escrevendo. Eu demoro a comentar por causa de minha vida corrida, mas fico muito feliz em poder participar dessa sua aventura literária.
Beijinhos

Paulinha disse...

Não me canso de me surpreender: Você é talentosíssima !